Estudos

Aumente seu conhecimento e experiência com os estudos bíblicos!

O Obreiro e o Relativismo Cultural

Ministração do Pr. Douglas Roberto de Almeida Baptista, ministrada na 42ª AGO da COMADEBG, realizada no ano de 2019

 

 

“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo” (Is 5.20).

 

INTRODUÇÃO

Um número cada vez maior de pessoas quando discordam acerca de algo costumam argumentar: “a minha verdade não é igual a sua verdade” e também “o que você pensa ser verdade é diferente daquilo que eu penso” ou ainda “o seu conceito de verdade é diferente do meu conceito”. Esta posição em relação à verdade chama-se

“relativismo cultural”, ou seja, a rejeição de que exista uma única e absoluta verdade. Seus defensores ensinam que a verdade acerca daquilo que é certo ou errado está condicionada aos valores culturais de cada sociedade. Deste modo existiriam várias

“verdades” compreendidas por diferentes pontos de vista, isto é, cada povo e cada cultura teriam a sua própria verdade.

Na Antropologia o combate à ideia de homogeneidade cultural é chamado de multiculturalismo. Esse termo também designa “um movimento teórico e político em defesa da pluralidade e da diversidade cultural que reivindica o reconhecimento e a valorização da cultura das chamadas minorias” (SILVA, 2013, p. 121). Como movimento político e social, o multiculturalismo é legítimo e representa um importante instrumento de luta contra o racismo, à discriminação e o preconceito contra determinados grupos percebidos como diferentes e marginalizados.

O problema do multiculturalismo está no ranço ideológico contrário à cultura judaico-cristã. Por vezes, extremistas e críticos exacerbados, colocam as mazelas sociais de grupos minoritários como sendo culpa da supremacia da religião cristã. Isto acontece pelo fato do cristianismo pregar verdades absolutas e não abrir mão dos valores morais e éticos da religião. Assim, o movimento multiculturalista torna-se contraditório, quando na defesa da diversidade cultural e na valorização de outras culturas faz empenho em questionar, culpar e desconstruir a cultura cristã. 

 

_______________________________

(*) Douglas Roberto de Almeida Baptista é pastor, graduado em teologia, pedagogia, filosofia com aplicação em sociologia e educação religiosa, pós-graduado em docência do ensino superior, especialista em bibliologia, lato sensu em métodos de ensino da filosofia e sociologia, mestre em ciências das religiões, mestre em teologia do Novo Testamento e doutor em teologia sistemática. Líder da Assembleia de Deus de Missão do Distrito Federal e do Conselho de Educação e Cultura da CGADB. Relator da Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil. Comentarista das Lições Bíblicas da CPAD.

Uma das ferramentas utilizadas com este propósito é a propagação do

“relativismo cultural”. Assim, dissemina-se a ideia de que tudo é relativo e que toda a verdade depende da cultura a que se está inserido. Que a ética cristã não pode ser parâmetro para o modo de vida e visão de mundo das pessoas. E que até mesmo a religião por ser o construto da sociedade deve ser modificada e adequada aos tempos modernos.

 

I. O RELATIVISMO CULTURAL E A ÉTICA

 

Pode-se entender o relativismo cultural como sendo uma ideologia que defende o que é certo ou errado a partir das convenções sociais preconizadas em cada cultura. Nessa perspectiva, um ato considerado errado em uma cultura não significa que seja errado quando praticado por alguém de cultura diferente. Sob este aspecto o relativismo cultural não é prejudicial e nem parece ameaçador. Porém, a questão fica crítica quando essa ideologia também se propõe a relativizar os valores morais e éticos em clara oposição e desconstrução da cultura judaico-cristã. 

 

1. Definição de Relativismo

Os filósofos gregos Pirro e Protágoras são provavelmente os mais antigos pensadores relativistas. Pirro de Élis (360-270 a.C) desenvolveu a ideia de que coisa alguma pode ser afirmada com certeza absoluta. Protágoras (490-410 a.C) tornou-se famoso pela citação “o homem é a medida de todas as coisas”. Esse sistema despreza as leis divinas e condiciona à verdade a consciência humana considerando tudo igualmente válido, isto é, a verdade do outro vale tanto quanto a minha verdade. 

Na ciência, a teoria especial da relatividade surgiu com o físico judeu-alemão Albert Einstein (1879-1955) que descartou a possibilidade de que existem espaço e tempo absolutos. Na filosofia, essa teoria científica provocou determinadas implicações. Alguns pensam que a teoria de Einstein corrobora o relativismo e a verdade passou a ser algo hipotético e o absoluto posto em dúvidas. 

Na língua portuguesa a palavra “relativismo” tem origem no latim “relatus” que significa “aquilo que é relativo”, que depende de alguma coisa. A ideia central dessa teoria é de que não existem verdades absolutas e que tudo é relativo. Esse conceito afirma que a verdade não é algo fixo, e que, portanto, a verdade sofre modificações e está condicionada a cada sociedade de acordo com a época e sua cultura.

 

2. O Relativismo Cultural

O relativismo cultural pode ser divido, de modo geral, em três categorias distintas, a saber: 

  1. simples constatação que existem variadas culturas no mundo,
  2. estudo dos diferentes costumes e culturas dos povos, e,
  3. rejeição de normas e valores absolutos e universais. 

 

Na primeira categoria o conceito de relativismo é totalmente inofensivo. Trata-se de uma definição inequívoca de que, nos mais variados e diversificados povos do planeta terra, a cultura não é única e nem homogênea. Consiste apenas no reconhecimento da existência de diversos contextos culturais em todo o mundo, isto quer dizer, que nossa sociedade é multicultural.

A segunda categoria conceitual ultrapassa a ideia da simples constatação e busca compreender qualquer elemento que difere uma cultura de outra, tais como o tipo de vestuário, artes, cerimônias, alimentação e religião, dentro do contexto cultural da qual elas surgiram. Esse conhecimento acerca da origem de outras culturas auxilia no combate ao etnocentrismo (ethno = povo; centrismo = centro) que consiste na visão de que um grupo étnico possui características culturais superiores aos outros. Não entender ou não reconhecer a diversidade cultural tem sido a causa do desrespeito e da intolerância entre as culturas.

A última categoria do conceito de relativismo cultural considera que todas as culturas possuem igual valor e são igualmente boas. Desse modo, filosoficamente, à ética e a moral dependem dos costumes e normas adotadas pela cultura de cada povo. Nesta perspectiva as culturas são equivalentes e, portanto, não se pode definir uma escala de valores entre as culturas e nem estabelecer um “padrão absoluto” para julgar os diferentes padrões culturais. 

Sob o ponto de vista destas conceituações o “relativismo cultural” contribui de modo positivo para o reconhecimento, a convivência pacífica e a tolerância entre as diferentes culturas. A objeção que fazemos diz respeito ao inconveniente ataque de desconstrução da cultura judaico-cristã e a insistência em usar o conceito para desqualificar e afrontar os valores éticos e morais da religião cristã em nosso país.

 

3. Definição de Ética

A palavra “ética” possui origem no vocábulo grego “ethos” que literalmente significa “costumes” ou “hábitos”. No latim é usado o termo correspondente “mos” (moral) com o sentido de “normas” ou “regras”. Assim, “ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e que, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros” (CHAUÍ, 1995, p. 340). Como esses termos, “ética” e “moral” são muito próximos, eles são muitas vezes confundidos e usados como sinônimos. No entanto, para fins didáticos e acadêmicos é possível defini-los separadamente.

 

4. A Ética e a Moral

A ética enquanto ciência pode ser entendida como a parte da filosofia que investiga os fundamentos da moral adotados por uma cultura. Foram os filósofos gregos que começaram a estudar estes fundamentos para então “identificar” uma pessoa como sendo boa ou má e também um ato como sendo bom ou mau. A partir destes fundamentos alguém pode ser classificado como “ético” ou “antiético”.

Pode-se afirmar, por exemplo, que a ética de Platão (427–347 a.C.) era

“transcendente” e “deontológica” (PALLISTER, 2005, p. 20). Essa teoria acredita que a noção do correto é algo moralmente bom em si mesmo. Neste caso, a fundamentação do certo e o errado estão ligados ao bem-estar da alma, um estado inerente ao ser humano e procedente de um mundo superior. Aqui o homem obedece ao dever, independente das consequências que a obediência pode resultar para si ou para os outros.

Em contrapartida, com Aristóteles (384–322 a.C.) surgiu à ética “imanente” e “teleológica” ou “utilitária. Essa teoria argumenta que o correto só pode ser definido a partir das consequências que um ato ou uma ação possa produzir. Aqui a fundamentação do certo e o errado procedem do mundo dos homens e depende apenas da utilidade e do bem-estar que as ações do individuo podem resultar para si ou para os outros. 

A moral, refere-se ao comportamento das pessoas e as reações dos indivíduos que compõem uma sociedade em relação às regras estabelecidas pela ética. Essas regras podem ser diferentes de uma cultura para outra e ainda podem ser modificadas de acordo com as transformações vividas pelos grupos sociais. Tudo depende da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento para os padrões de conduta.

Quando se analisa as teorias éticas acima discutidas, percebe-se que na

“deontológica” é o princípio da ação moral que é bom ou mau independente do seu resultado. Já na teoria “teleológica” o princípio moral é substituído pela previsão racional das vantagens e desvantagens que determinada ação pode produzir. No primeiro caso os atos morais, mesmo corretos, podem prejudicar a si e o outro. No segundo caso a moral se relativiza, busca não se prejudicar evitando o sofrimento, e assim pode servir para legitimar a máxima que diz “os fins justificam os meios”.

Em síntese, a ética trata dos princípios que orientam a conduta. E, em sincronia, a moral é a prática dessa conduta ética. Por exemplo, “se eu tenho um princípio ético que me orienta a dizer a verdade, minha conduta moral será mentir ou não”. E este ponto é nevrálgico para o autêntico cristão que sempre dirá a verdade, ainda que a mentira possa lhe trazer alguma vantagem pessoal.

 

5. A Ética Cristã

A ética cristã tem como objetivo indicar a conduta ideal para a retidão do comportamento humano. O fundamento moral da ética cristã são as Escrituras Sagradas. Portanto, a ética cristã não se modifica e nem se relativiza. Desse modo, a ética cristã não pode ser desassociada da moral e dos bons costumes preconizados nas doutrinas bíblicas. 

Sob esta concepção os pais da igreja adotaram a ética “transcendente” e “deontológica”. Isto significa que a vida ética cristã procede de um Deus transcendente e pessoal que concede ao ser humano a capacidade de viver a verdadeira moral.

Agostinho de Hipona, na obra “Cidade de Deus” (Escrita entre 413–426 d.C) reconhece que a graça de Deus é indispensável para transformar o caráter humano e fazê-lo viver de acordo com os padrões morais divinamente estabelecidos. 

Para Agostinho, a educação, a meditação, os códigos e as leis, por si mesmas, não conseguem levar o homem a agir de modo ético. Ele dizia que: 

 

Na cidade dos homens não se pode esperar que haja um comportamento ético digno. O Estado não providencia justiça, positivamente, serve apenas como freio para impedir o aumento da injustiça. Providencia ‘paz entre ladrões’ (PALLISTER, 2005, p. 20).

 

 Na perspectiva de Agostinho a ética cristã só poderia ser vivida quando o cristão experimentasse a verdadeira regeneração. O mero esforço humano servia unicamente para disfarçar a natureza caída. A eventual virtude demonstrada por alguém era algo temporário, falso e aparente. Somente a genuína regeneração faria o homem verdadeiramente virtuoso. 

Tomás de Aquino discordou e propôs algumas modificações nesta visão agostiniana. Aquino considerava que as leis humanas não somente inibiam a prática do mal, mas também podiam moldar pessoas de boa índole. O ensino de Aquino não deixou de “ser transcendente e deontológico”, contudo permitiu flexibilizar a ética. 

Com o advento da Reforma Protestante (1517), os reformadores restauraram a ética de Agostinho, defenderam a revelação bíblica como única infalível e inerrante regra de fé e conduta (Sola Scriptura) e a estenderam a todos os homens. Assim, a ética protestante reafirma a doutrina bíblica de que todos serão julgados à luz do conhecimento que tiveram de Deus. E de acordo com o apóstolo Paulo, quando esse conhecimento for parcial, os homens serão julgados pela lei escrita em seus corações (Rm 2.14-16). 

 

6. O Relativismo Ético

Também é conhecido como “ética da situação”. Afirmam que a ética e a moral são valores decididos pela sociedade e que o certo e o errado dependem da cultura. Como as culturas se modificam, a ética fica condicionada às circunstâncias de cada época. Desse modo a ética passa a satisfazer a consciência de cada um, isto é, o que é certo para um pode não ser certo para o outro. O relativismo ético remonta as ideias de

Protágoras em que o “homem é a medida de todas as coisas”. Significa que nenhum critério pode ser aceito para se medir valores éticos ou morais.

Nesse sentido a ética relativista conduz o ser humano ao relativismo individual e o deixa bem próximo da anarquia social. A ausência de valores absolutos para se medir comportamentos indubitavelmente conduzirá a sociedade para o caos e a existência social será impraticável. Platão e Aristóteles reconheciam que os padrões de moralidade sofriam variações, mas alertavam “que a verdade e o bem são objetivos e absolutos, e que a sociedade se fragmenta e a vida humana perde seu valor quando o relativismo é defendido e praticado” (HENRY, 2007, p. 513).

 

7. O Relativismo e a Bíblia

A ética e a moral encontram-se divinamente reveladas na Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé e conduta para os cristãos (2Tm 3.16-17). Os ensinos de Cristo são universais e imutáveis de geração a geração (Sl 100.5; Mt 24.35). Os princípios bíblicos do certo e do errado não podem ser relativizados. Falsos cristãos são seduzidos pela ética relativista, porém, o crente salvo não negocia a fé, ama e obedece a Bíblia Sagrada e rejeita o relativismo.

Os conceitos do relativismo cultural quando aplicados de maneira incorreta tendem a invalidar os preceitos bíblicos e violar a autoridade das Escrituras Sagradas.

Não obstante, a revelação contida na Palavra de Deus é para o cristão a singular fonte inalterável de valores éticos e morais. Reiteramos aqui as palavras de Cristo quando afirmou: “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt

24.35). Quanto a esta questão Matthew Henry (2008, v. 1, p. 322) descreve:

 

Note que a palavra de Cristo é mais confiável e duradoura do que o céu e aterra. “Diria ele e não o faria?” Nós podemos edificar com mais segurança sobre a Palavra de Cristo do que sobre as colunas do céu, ou as fortes fundações da terra; pois quando elas estiverem trêmulas e cambaleantes, e não existirem mais, a palavra de Cristo ainda permanecerá, e estará em pleno vigor, em plena força e virtude.

 

Alicerçados na autoridade das Escrituras, a posição cristã reconhece a existência de valores absolutos e discorda que a revelação bíblica deva ser avaliada pela medida humana. Reconhecemos e respeitamos a diversidade cultural, porém rejeitamos a ideia de relativização dos valores divinamente revelados à humanidade.

 

II. VERDADES BÍBLICAS INDEPENDEM DA CULTURA

As Escrituras Sagradas ensinam que as verdades divinamente reveladas independem da cultura, e, portanto, devem ser observadas por todos os povos. Para o cristão a autoridade e a inspiração divina das Escrituras são fatos inquestionáveis. O reformador alemão Martinho Lutero (1483-1546), compreendia que o sentido de “Sola

Scriptura” era literal, ou seja, somente a Escritura – e não a Escritura somada à interpretação dos homens ou a cultura dos povos – é a fonte de revelação cristã. Sua defesa era pela centralidade da palavra de Deus. 

Lutero não reconhecia nenhuma outra fonte como autoridade infalível de fé e conduta que não fosse as Escrituras. Na obra intitulada “Do cativeiro babilônico da Igreja”, Lutero escreveu:

 

Contendemos pela firmeza e pureza da fé e das Escrituras [...] Pois devemos estabelecer a distinção mais nítida possível entre o que nos foi entregue por Deus nos textos sagrados e o que foi inventado na Igreja pelos homens, não importa a eminência da santidade ou da erudição deles (LUTERO, V.2, 2010. p. 403).

 

Quanto a este tema, o reformador da Suíça, Ulrico Zwínglio (1484-1531) compartilhava com Lutero e também enfatizava a centralidade das Escrituras. No tratado “A clareza e a certeza da Palavra de Deus” (1522), Zwínglio argumentou “em favor da capacidade da Bíblia de interpretar a si mesma de forma lúcida e inequívoca em todos os assuntos importantes e ensinou que além da Bíblia, a igreja não possui outra autoridade (MCGRATH, 2012, p. 74). O reformador de Genebra, o francês João

Calvino (1509-1564), em 1536, publicou a obra “Institutas da religião cristã”, que dentre outras coisas, defendia a Bíblia como base e firme alicerce para as crenças e estruturas cristãs. O reformador anabatista Menno Simons (1496-1561) baseou todo o seu programa de Reforma num apelo urgente à autoridade da Bíblia. Quando ele começou a pregar a partir da Bíblia ganhou a reputação de “pregador evangélico” (GEORGE, 1993, p. 259). O reformador holandês Jacó Armínio (1560-1609) igualmente defendeu a centralidade das Escrituras:

 

Elas merecem obediência, pela credibilidade conferida a elas, quando ordena ou proíbe alguma coisa [...] A autoridade de qualquer palavra ou texto depende de seu autor [...] Deus é de infalível veracidade [...] Ele é o autor das Escrituras, a autoridade delas depende total e exclusivamente dEle (ARMÍNIO, v. 1, 2015, p. 364).

 

Nesta perspectiva, Armínio considerava que a perfeição das Escrituras era retirada e solapada quando “a inspiração perfeita dada aos profetas e apóstolos, que administram as Escrituras, é negada, e a necessidade e a frequente ocorrência de novas revelações depois daqueles homens santos são declaradas abertamente” (ARMÍNIO, V. 1, 2015, p. 377). E no debate de número III “Sobre as Sagradas Escrituras e às tradições humanas” Armínio asseverou que todas as doutrinas necessárias para o cristão já nos foram transmitidas pelas Escrituras e que nenhuma tradição humana pode acrescer ou retirar coisa alguma (Ap 22.18-19).

 

1. Cristo é a verdade absoluta

A expressão “absoluto” vem do latim “absolutus” e significa o que é “perfeito” ou “completo”. A Bíblia assevera que Cristo é a verdade absoluta: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida” (Jo 14.6). Cristo declarou ser a única verdade e esta reivindicação exclusiva de Jesus é inequívoca. A verdade é exclusiva no sentido de ser única, mas também é inclusiva no sentido de estar disponível para todos. Ao comentar este versículo, Bruce destaca que “toda a verdade é de Deus, assim como toda a vida é de Deus. E a verdade e a vida de Deus estão encarnadas em Jesus” e acrescenta que “Jesus não é somente o caminho até Deus; ele é a verdade de Deus” (2002, p. 256). Sobre este conceito, o Dicionário de Ética Cristã argumenta:

Deus é a autoridade última do cristão. Sua vontade é, portanto, absoluta. Deus falou, e a Bíblia, como Palavra escrita de Deus, carrega esta clara autoridade. [...] Em alguns casos, a vontade absoluta será tão específica que se identificará como uma regra definida de ação, enquanto em outros, será um princípio do qual se derivará a regra de ação definida (HENRY, 2007, p. 23-24)

 

Quanto a esta declaração, as Escrituras são enfáticas em ensinar que Cristo é a única, completa e perfeita revelação de Deus e de sua verdade para todos os povos. No magnifico versículo de abertura do livro aos Hebreus, o autor escreve magistralmente: “Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1.1). No passado Deus falou de variados modos, por meio dos profetas, mas agora quando o Filho veio, Ele é o portador da revelação final e sua autoridade não pode ser questionada (At 4.12). 

Aqui é importante salientar que todo o processo de revelação – que se desenvolve na história do homem – é descrito com um só verbo: Deus falou. Isto é, a verdade absoluta procede da parte de Deus.

Em sua encarnação Cristo indica o único caminho de retorno ao Pai, aponta para a única verdade de redenção da humanidade e assegura vida eterna unicamente aquele que crê na verdade (Jo 3.16). Alguns questionam que um único caminho é restritivo demais, porém, os textos bíblicos advertem que não existem caminhos alternativos. Todos os caminhos que ignoram a verdade absoluta de Cristo são caminhos de perdição (Mt 7.13). Por conseguinte, sem verdade absoluta, qualquer ética penderá para alguma forma de relativismo, que indiscutivelmente, conduzirá seus seguidores a trilhar um caminho de morte (Pv. 14.12).

 

2. A palavra de Deus e a cultura

A respeito da análise clássica dos tipos de comportamentos desenvolvidos entre o cristianismo e seu contexto cultural destaca-se o trabalho do teólogo protestante norteamericano Richard Niebuhr (1894-1962). Em 1951, Niebuhr publicou “Christ and Culture” (Cristo e a Cultura) onde apresenta cinco modelos que o cristianismo histórico desenvolveu a partir da reflexão sobre seu comportamento com seu ambiente cultural (MCGRATH, 2012, p. 309).

 A primeira postura listada por Niebuhr é a de oposição entre o cristianismo e cultura: “Cristo contra a cultura”. Essa atitude estava inicialmente associada com a Reforma radical onde seus defensores ensinavam a separação total dos cristãos da cultura mundana e caída. O movimento mais conhecido destes ensinos é o amish, um grupo que busca viver isolado da sociedade. Estas comunidades recriam o modelo de vida do século XVII, época em que o grupo foi criado pelo suíço Jacob Amman de quem deriva o nome do movimento. Porém esta posição foi desaconselhada pelo próprio Senhor Jesus quando orou ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17.15). E também nos escritos paulinos quando o apóstolo ordena um viver santo e incontaminado sem necessariamente sair do mundo (1Co 5.9-11).

 A segunda posição é chamada de “O Cristo da Cultura”. Nesta interpretação o cristianismo deve ajustar-se para que esteja sintonizado com as normas culturais. O melhor exemplo dessa abordagem é o movimento conhecido como “protestantismo liberal”, que começou na Alemanha no início do século XIX. Para seus defensores “o protestantismo precisava adaptar-se, se quisesse sobreviver. Por essa razão, eles exigiam um grau de liberdade em relação à herança doutrinal do cristianismo, e dos métodos tradicionais de interpretação bíblica” (MCGRATH, 2012, p. 311).

 Esta postura assemelha-se ao “relativismo cultural” que não reconhece verdades absolutas e está sempre disposto a modificar-se para se adaptar. Tal posicionamento não é referendado pelas Escrituras. O cristão não pode moldar-se a determinada cultura para estar sintonizado ou sentir-se aceito por este ou aquele grupo social. Embora, a Palavra de Deus não requeira o nosso isolamento do mundo e de sua cultura, por outro lado, ela nos exorta a “não amar o mundo”, pois tudo o que há no mundo pertence ao mundo e não procede da parte do Pai (1Jo 2.15-17).

 Enquanto o protestantismo liberal pretendia acomodar as ideias e valores cristãos aos da cultura secular, a terceira abordagem “Cristo acima da cultura” busca subordinar os valores da sociedade às doutrinas cristãs. Essa ideia também é chamada de “sinteticismo” presente nos escritos de Tomás de Aquino que vê a Igreja como geradora da verdadeira cultura. Aqui a problematização é a dificuldade de uma determinada cultura vir a ser absoluta e ficar acima da própria palavra de Deus. A quarta abordagem coloca “Cristo e cultura em paradoxo”. Ensinam que o cristão deve pensar que pertence a dois reinos, em geral, designados como “temporal” e “espiritual”. O governo espiritual é efetivado por meio da Palavra e o governo mundano é efetivado por meio da lei civil. Também chamado de “dualismo” presente em Agostino, essa ideia do reino de Deus e o reino dos homens, são conceitos conflitantes e tendem a interpretações subjetivas. 

                   A quinta e última abordagem apresenta “Cristo, o transformador da cultura”.

Esta posição também chamada de “conversionismo” representada por John Wesley (1703-1791) busca a transformação da cultura e da sociedade por meio da conversão. Essa postura rejeita isolar a igreja do mundo, mas também não pretende comprometer o Evangelho para acomodar as verdades cristãs aos valores da cultura hodierna. Esta abordagem “sustenta que a cultura permanece sob o julgamento de Deus” (MCGRATH, 2012, p. 313). Desse modo, o cristão não pode ser subjugado pela cultura. Fomos chamados por Deus para ser santo em toda a maneira de viver (1Pe 1.15). Com este propósito em mente, na oração sacerdotal Jesus pediu ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). Essa oração indica que somente a verdade absoluta revelada nas Escrituras pode libertar o homem do pecado (Jo 8.32). Tudo o que Deus requer do comportamento cristão está revelado nas Escrituras (Rm 15.4). Por isso, o cristão não pode ser guiado pela cultura secular e pagã. Já ensinava o salmista:

“Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para o meu caminho” (Sl 119.105).

 

3. Não podemos mudar a verdade

Paulo alerta a Igreja de Corinto: “nada podemos contra a verdade, senão pela verdade” (2Co 13.8). No contexto desta passagem tanto o “evangelho” quanto a “retidão moral” são apresentados como conceito da verdade. Esta expressão paulina indica que rejeitar a verdade, seja ela no campo da ética ou da moral, implica em combater contra Aquele que é a verdade – Cristo e seu evangelho. Portanto, não é possível anular a verdade, ainda que alguma ideologia o queira fazer. Aqui está evidenciado um princípio geral: não importa o que o homem faça para torcer a verdade, no final, quer queira quer não a verdade triunfará sobre a falsidade e o engano. Pode até ser que a verdade fique oculta ou subjugada por um determinado espaço de tempo, mas por fim ela ressurgirá triunfante. 

Assim sendo, segundo as Escrituras Cristo é a verdade imutável (Hb 13.8). Aquilo que Cristo ensinou deve permanecer como padrão da verdade, pelo qual todas as ações do homem serão julgadas. Embora a cultura muda e se relativiza ao nosso redor, embora mudem os tempos e também as pessoas, Jesus Cristo não muda. Ele é o mesmo em todas as épocas: ontem, hoje e eternamente. Desse modo, não importam o número dos ataques desferidos contra a verdade no passado ou no presente e nem mesmo os embates do futuro, ninguém poderá mudar ou alterar a eficácia da verdade. Mudam-se as culturas e os costumes, mas a palavra de Cristo permanece inalterada (Mt 24.35). 

Por conseguinte, diante da exortação paulina, não podemos alterar a verdade bíblica para acomodar a fé cristã aos valores da cultura secular. Nem tampouco devemos ceder ao comodismo e assistir passivamente à deturpação da verdade. Não estamos autorizados a acrescentar ou retirar algo da verdade revelada por Deus (Ap 22.18-19). Enquanto a Igreja estiver na terra, temos que oferecer resistência à iniquidade. É responsabilidade da Igreja de Cristo desempenhar o papel de sal da terra e luz do mundo

(Mt 5.13-14). Se bem cumprirmos nosso papel de “sal e luz”, o poder do evangelho pode desarraigar a iniquidade nos corações dos seres humanos. No caso contrário, se o sal perder o sabor e a luz for trevas, então a Igreja será pisoteada pela sociedade e também sofrerá o açoite divino. O apóstolo Pedro exorta que o juízo divino começa pela casa de Deus para que as impurezas da Igreja sejam expurgadas e por fim o julgamento atingirá todos aqueles que desobedecem ao evangelho - a verdade de Deus. Em consequência, a cultura permanece sob o julgamento de Deus (1Pe 4.17).

 

5. O perigo em relativizar a verdade

Na época do profeta Isaías, a ordem social, o estado moral, ético e espiritual do povo de Judá era lamentável. O mal era caracterizado pela inversão dos valores. O profeta fora enviado a uma nação que se recusava ouvir a palavra de Deus (Is 1.2-6, 1017, 6.9-13). Neste cenário de podridão moral e espiritual, Deus levantou um atalaia para profetizar contra a nação. Dentre as reprimendas, o profeta vaticinou “seis ais” que confrontavam o comportamento inadequado daquele povo. O primeiro “ai” era contra o materialismo desenfreado e o enriquecimento ilícito (Is 5.8-10). O segundo “ai” duplamente anunciado condenava a bebedeira e a embriaguez que conduzia a ociosidade (Is 5.11-12, 22). O terceiro “ai” repreendia os que zombavam da verdade e duvidavam do juízo divino apostando no ceticismo (Is 5.18-19). O quarto “ai” era um alerta acerca da perversão dos valores. Tratava-se de uma dura advertência acerca do extremo perigo do relativismo cultural (Is 5.20). O quinto “ai” era uma condenação aos presunçosos que se julgavam sábios e únicos donos da verdade (Is 5.21). E, o sexto e último “ai” repreendia a corrupção, o suborno e a perversão do direito (Is 5.23). Essas atitudes reprováveis e imorais causaram a derrocada da nação (Is 5.24-25). 

Em nosso tempo não é diferente, a sociedade está em estágio de putrefação moral e ética, pois a verdade vem sendo modificada por intensa manipulação do pensamento. Homens inescrupulosos afrontam a verdade de Deus e a sua palavra promovendo ideologias contrárias a revelação divina. O relativismo cultural aliado à ideologia secularista impõe ao cidadão aquilo que deve ser considerado como ideal.

Acuada a sociedade temerosa do “patrulhamento ideológico” não esboça reação e o mal vem sendo aceito e tolerado. A cultura pós-moderna do relativismo tem invadido, inclusive, diversos setores da Igreja que se autodenomina cristã. O farisaísmo - como dissimulação da verdade - tem adentrado em nosso meio. A reprimenda de Cristo os classificando como “Condutores cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo” (Mt 23.24) vem sedo ignorada por uma parcela considerável da Igreja e de sua liderança. Contudo, as Escrituras são categóricas em revelar que não haverá escape para os transgressores. Aos que relativizam a verdade, a Palavra de Deus vaticina: “não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita” (2Pe 2.1-3). A igreja não pode fechar os olhos para a inversão dos valores. Mercê de tais fatos, os cristãos precisam esboçar reação e “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd v.3).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Historicamente o conceito de ética e relativismo surgiram na antiga Grécia, período que coincide com o século IV a.C. As Sagradas Escrituras contêm os fundamentos da ética não apenas para os cristãos, mas também para a sociedade humana. No Antigo Testamento Deus revelou instruções éticas específicas. Nos evangelhos encontramos os ensinamentos éticos de Jesus. Nas epístolas neotestamentárias o tema está amplamente registrado. 

Mercê da relevância do assunto, os primeiros pais da Igreja também abordaram a questão da ética em seus escritos a fim de evitar a relativização. Justino Mártir (100-165 d.C.) exortou-nos a imitar as virtudes de Cristo como padrão de conduta. Agostinho de Hipona (354–430 d.C.) destacou a necessidade da regeneração como meio capaz de levar o homem a uma conduta ideal. Na Idade Média, Tomás de Aquino (1225-1274) abordou a questão tendo como premissa a existência de Deus e o conceito de liberdade e o direito de escolha do ser humano – o livre arbítrio. 

No período da Idade Moderna (séculos XV a XVIII) os preceitos religiosos começam a ser questionados e foram gradativamente perdendo sua força. No apogeu do iluminismo (século XVIII) quando conhecimento e religião se separam, o homem é colocado como centro do Universo e faz-se uma releitura da ética. A partir da Revolução Francesa, 1789 (Historiadores afirmam que esse evento inaugurou a Idade Contemporânea), as ideias de Immanuel Kant (1724–1804) passam a exercer forte influência nos conceitos éticos. Para Kant a ética é autônoma, a lei é ditada pela própria consciência moral e o homem tem a liberdade de fazer o que for mais racional. Na segunda metade do século XIX, Friedrich Nietzsche (1844–1900), retirou todo e qualquer vínculo da religião com os conceitos de ética. Os séculos XX e XXI, extremamente centrados no materialismo, egocentrismo, hedonismo e narcisismo inauguraram uma assustadora crise ética de ordem universal.

 

 

Douglas Roberto de Almeida Baptista

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol. 1 a 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 2ª Ed. São Paulo: Editora Ática, 1995.

GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: vida Nova, 1993. HENRY, Carl (Org.). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2007.

HENRY, Matthew. Comentário Bíblico do Novo Testamento: Mateus a João. Vol. 1.

Rio de Janeiro: CPAD, 2008.

LUTERO, Martinho. As 95 teses e a essência da Igreja. São Paulo: Vida, 2016.

MCGRATH, Alister. A Revolução Protestante. Brasília: Editora Palavra, 2012.

PALLISTER, Alan. Ética Cristã Hoje. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.

SILVA, Afrânio e.tal. Sociologia em Movimento. São Paulo: Editora Moderna, 2013.

 

  Download Apostila

 

 

Image


CONTATO

AE 08 Setor D Sul, Sala 203

+ 55 (61) 3013-5525

9h-12h Segunda a Sexta

secretaria@comadebg.com.br

Siga-nosnas Redes Sociaisno Instagramno Facebookno Youtube